A independência Gonzaga

11 abril 2016,   By ,   0 Comments

dnail

Daniel Gonzaga completa, em 2016, 20 anos de carreira, com direito a gravação de seu primeiro DVD, produzido de forma independente como seus seis CDs. À frente da Moleque Produções Artísticas, batalha na própria carreira e na de outros artistas, focados em nichos bem específicos. “Talvez eu seja o único a criar, no Brasil, trilha sonora para circo”, afirma, já deixando claro seu orgulho por fazer diferente.

Na adolescência, se inspirava nos rocks da Legião Urbana e do Ira quando começou a tocar os primeiros acordes – para a decepção do pai Gonzaguinha, que segundo ele preferia algo “mais tradicional”. Herdou o dom familiar da música e também o orgulho do sobrenome de peso. Fala confiante das lutas travadas desde a geração do avô e celebra o Museu de Gonzagão, legado criado na pequena Exu, em Pernambuco.

Ainda aos 16, lembra, recebeu a missão de ser “o homem da casa”, posição que ocupa ainda hoje. “São 25 anos de batalha, em uma vida de 41”, resume. O Prêmio da Música Brasileira conversou com Daniel Gonzaga, que contou sobre esses fatos e vários outros de sua trajetória, além de falar sobre a homenagem deste ano, a Gonzaguinha.

– Não há matéria ou entrevista com você que não comece com “filho de Gonzaguinha e neto de Gonzagão”. Vamos fazer diferente, deixar as relações familiares de lado por um momento e dizer: quem é Daniel Gonzaga?

Bom, nada começou com as relações familiares. Comecei a tocar porque, desde muito novo, gostava de rock nacional, o que deixava meu pai muito p*. Gostava muito de Legião, Ira, Engenheiros do Hawai, gosto ainda. Ele não entendia muito, queria que eu seguisse um caminho mais tradicional. É aquela coisa de pai, né? E aí, ele morreu muito cedo e continuei meu trabalho de forma mais autoral.

As pessoas tendem a me enxergar muito mais perto do meu pai, tanto que sempre falam – como você disse – filho de Gonzaguinha e neto de Gonzagão e a pergunta que vem na sequência é se ouço muito meu pai e meu avô. Não escuto nunca. Já escutei demais, gosto muito de ambos e sou fã, assim como admiro Chico Buarque e Legião Urbana, mas não ouço todos os dias. Acho que nunca mais ouvi Legião. Como a música é meu oficio, ouço de tudo.

Já fui muito convidado para cantar músicas de meu pai, sempre considerei grandes homenagens a ele e nunca acreditei que isso alavancaria minha carreira, como nunca o fez. Talvez, se tivesse me apoiado nisso, eu estaria até melhor do que estou. Trabalho de forma independente, faço trilha sonora. Além de estar preparando alguns trabalhos para programas de TV, sou um dos poucos ou, talvez o único, no Brasil que faz trilha para circo. Trabalho com isso o tempo todo. Tenho seis discos, a maioria deles autoral.

– Produzir de forma independente não é fácil, como você se garante nesse sentido?

Daniel é um cara que faz vídeos, edita, canta, produz. Faço muitas coisas ao mesmo tempo, tenho uma editora, uma produtora, um selo. Tenho uma tese louca (risos) de que com 40 mil reais é possível gravar 10 discos, estou no sexto. Trabalhamos em contexto de nicho, com artistas que já são conhecidos em determinado grupo e, com a venda de um disco um pouco mais caro, o músico tem um retorno mais alto. É uma estratégia para viver no cenário independente.

– Há sempre artistas que servem de referência a outros. Quais foram/ são os seus?

Ouço tanta coisa… Tá aí uma pergunta difícil de responder! Chico Buarque, Tom Jobim e Sting. Acredito que escolhendo esses dois, consigo dar uma abrangência legal. Mas ouço tudo, música romena, jazz, rock’n’roll. Músico não se restringe. Recebo trabalhos de cantores muito jovens que, às vezes, me enviam por facebook o que estão fazendo e gosto de conhecer o novo para não virar um chato.

divul

(divulgação)

– Tocando, então, no assunto inevitável: quais as vantagens e desvantagens de ser um Gonzaga?
Ser um Gonzaga é demais, incrível. Somos poucos e bons! (risos) Não há desvantagens. Na verdade, acho muito pouco quando as pessoas querem me comparar com meu pai. Me vejo como um anteparo da saudade que elas sentem dele, mas acho isso muito pouco e faz com que elas percam mais um artista.
Quem conhece meu trabalho, sabe de algo que muitos desconhecem por preconceito ou ignorância, algo comum em projetos de nicho. Tem repórter que me pergunta até hoje se canto. Respondo “não só canto, como tenho 6 discos e um DVD que sairá em breve”.

É outra constante ser um Gonzaga. Temos o museu em Pernambuco, uma luta que foi de meu avô e de meu pai, uma luta minha também. Fica na cidade que meu avô escolheu viver e todos trabalhamos por ele. Ser um Gonzaga envolve muitas lutas… A Moleque [produtora] foi aberta por meu pai, depois criei o selo… Enfim, ser um Gonzaga é quase como ser um vereador (risos) porque envolve muitas lutas e um trabalho extenso.

– No início, quando você tinha seus 16 anos, foi mais difícil?

Foi mais difícil porque perdi meu pai e minha mãe, quase simultaneamente. Tive que ser o “homem da casa” e sou até hoje. Com 16 anos, a gente sabe pouca coisa do movimento do mundo, da política, dos contatos. Até hoje, tem gente que diz que sou muito impulsivo e, às vezes, até meio ogro. Mas passei a vida dentro de uma luta que vem até hoje. São 25 anos de batalha em uma vida de 41.

Eu tinha irmãs, uma casa, responsabilidades. Acabei gravando meu disco aos 18 anos, pois já tocava e era assim que ganhava algum dinheiro. Fazia bailes, tocava bastante, em uma época sem internet. Não tinha como eu propagar meu trabalho, não fosse investindo mais em mídia de jornal e rádio, assessoria de imprensa.

Só que além de reinvestir, tinha que comer. Meu pai era uma grande árvore com uma sombra que abraçava muita gente e, quando ele foi embora, muitas pessoas ficaram desprotegidas. Eu tive que protegê-las, algumas delas, ainda protejo. Então, foi realmente muito difícil. Hoje, é mais simples, você vai aprendendo como é o jogo, fica mais experiente e ganha uma camada de verniz que lhe permite conversar com as pessoas. Ainda sou um ogrinho, mas agora consigo ter um pouquinho de educação para conversar. (Risos)

gonzaguinha e seu filho daniel

(Reprodução “Comportamento Geral”)

– E suas filhas, vão para a carreira artística também?
São muito novinhas ainda para dizer, mas uma delas, que tem apenas 8 anos, já canta e diz que será cantora.
– O Prêmio da música existe desde 1988 e já homenageou uma série de artistas consagrados. Tantos anos depois da morte de seu pai, o que essa homenagem significa para você?
Acho o máximo e estou orgulhoso por dois pontos. O primeiro deles, e mais óbvio, é pelo reconhecimento ao trabalho dele. Independente de ser filho, acredito que tenha sido muito importante para a história do país. E é engraçado o Prêmio falar dele bem no contexto que vivemos agora, em meio a esse conflito político que estamos vivendo.
Conseguiram deixar o Gonzaga vivo por mais 25 anos, que pode parecer um trabalho autossustentável, mas não é. Existe um controle de ver o que é verdadeiro e o que não é. Você não encontra o nome dele envolvido com política, apesar de ele ter sido partidário. Não se vê uma propaganda de partido com músicas dele. Preservamos o Gonzaga em um lugar confortável, envolvido com os melhores projetos.
Nesse sentido, o Prêmio da Música é um dos e esse é mais um motivo para me orgulhar. O Zé Maurício [José Mauricio Machline] e meu pai têm histórias de lutas muito fortes, batalhas grandes. Têm uma história que só eles dois podem contar e, tenho certeza que é muito importante para Gonzaga estar sendo homenageado por Zé Maurício e acho que para o Zé, nesse momento, também é. Vai ser muito emocionante, se ele estivesse aqui também ficaria muito emocionado. Vai ser muito legal, estarei lá prestigiando!
– Vários artistas já gravaram canções dele. Existe alguém que você acredita ser aquela pessoa que seu pai adoraria ver cantando uma de suas canções, mas não teve chance?
Ivan Lins é um cara que eu adoraria ver gravando Gonzaga. Seu Jorge, que também é parceiro, poderia gravar um disco de Gonzaga, ia bater bem a linguagem. Por fim, a Céu, para termos algo diferente do esperado.