De fã a intérprete

02 junho 2016,   By ,   0 Comments

Júlio Andrade, que viveu Gonzaguinha no cinema e o fará na cerimônia do PMB, conta sobre a preparação para o papel

Conhecido por sua facilidade em ser uma “metamorfose ambulante” em suas interpretações nas telinhas e telonas, Júlio Andrade não esconde o quanto desejou passar de fã de Gonzaguinha ao intérprete do músico. “Quando soube que poderia existir um filme sobre ele, logo espalhei que gostaria de fazer um teste”, revela.

Vivendo um “momento muito família”, com um bebê de um ano e 2 meses, Julinho, como é conhecido entre os amigos, confessa estar ansioso para voltar a ser Gonzaguinha, desta vez, no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na homenagem que a 27ª edição do Prêmio fará ao cantor.

– Você já tinha imaginado interpretar Gonzaguinha?

Já gostava dele antes, mas nunca tinha pensado em representá-lo. Meu pai ouvia muito o disco “Alô, alô, Brasil”, quando eu era pequeno, e eu cantava com ele.

Na verdade, comecei tocando em banda, música popular em barzinho e, mais pra frente, apareceu a oportunidade de fazer um espetáculo. Então, fiz teatro um bom tempo na minha cidade, até que me mudei para São Paulo, resolvi ser ator e comecei no cinema.

Meu primeiro filme foi “Velinhas” (1998), depois, fiz muitos curtas-metragens e continuava nessa coisa de música e cinema, Gonzaguinha sempre presente.

Mais tarde veio “Cão sem dono” (2006), que foi um divisor de águas, meu primeiro protagonista, mudei pro Rio. Então, uma amiga da minha ex-namorada contou que estava produzindo um filme sobre Gonzaguinha. Logo minha ex falou que eu era ator e apaixonado por ele, contou de “Cão sem dono”, a produtora adorou e veio falar comigo despretensiosamente sobre o longa, foi o suficiente para já me interessar.

Acontece que, desde esse dia, passaram-se 5 anos. Demorou muito até o filme começar a pré-produção e a escolha do elenco. Durante todo esse tempo, fiquei com ele na cabeça, queria mostrar o meu Gonzaguinha, que eu sabia que existia por essa afinidade, amor pela música e poesia dele. Queria contar essa história! Aí, pintou o teste e ficaram sabendo que eu gostaria de fazer. Na verdade, tinha espalhado para muita gente que eu queria fazer.

Lembro que fiquei uma semana escutando Gonzaguinha, me preparando psicologicamente para o teste, que era algo muito importante para mim e comecei a perceber que era parecido com ele. Me maquiei de manhã pro teste, coloquei uma roupa meio anos 1980, peguei o violão – eu sabia tocar algumas músicas – fui para o teste e estava realmente muito parecido com ele, nem eu imaginava. Consegui entrar no filme e foi uma experiência maravilhosa.


– Você citou sua relação com a música. Conte mais um pouco sobre isso.

Comecei cantando, tinha uns 17 anos, não vivia disso, mas tocava sozinho em um barzinho na minha cidade. Tocava MPB, Caetano, Chico, Djavan… Foi importante para um crescimento também como ator, ajudou. Aliás, cada papel meu tem muita relação com música, há uma trilha sonora para cada um deles. Quando comecei a fazer cinema, teorizei isso porque virou minha fonte de renda. Mas eu amo a música, tenho um estúdio, uma bateria.


– E seu estilo preferido é MPB?

Minha paixão é a música popular brasileira, sempre tive muita afinidade com nossa música. Por um tempo, cantei canções internacionais em uma banda de blues, mas era algo muito mais performático.


– Com toda essa relação, vem, agora, esse envolvimento com o PMB. Qual seu sentimento em relação a isso?

Queria chegar aí. Depois de Gonzaguinha, fiz outros papéis, sempre no cinema. Mas quando acabei o filme, senti uma necessidade de mostrar mais do meu Gonzaguinha. Um filme você faz um mês e pouco e depois acaba. Tinha uma vontade de fazer um musical sobre ele, incluindo banda e teatro e, logo depois de ter pensado nisso, fui convidado para fazer o Prêmio.

Foi um presente que caiu do céu, por ser algo importante, no Theatro Municipal. Sei que vão pessoas de que sou muito fã e estar ali, na figura de Gonzaguinha, vai ser muito legal. Quando penso nisso, me dá um frio na barriga, aquela coisa de estreia do teatro, que estou com uma saudade de fazer.


– Gonzaguinha, Paulo Coelho, Raul Seixas. Como é a interpretação de personagens que são, na verdade, pessoas reais?

Acabei fazendo diversas cinebiografias, acho que por ser um pouco mutante. É difícil fazer alguém que já exista, porque você não parte do zero. Recentemente interpretei, também, Lennie Dale [que foi professor de dança de Elis Regina] e a verdade é que gosto de ser desafiado, curto isso. Tenho certa necessidade de adentrar nas histórias e me fundir com elas. Tenho essa loucura!


– É mais difícil pela comparação com o real?

Sim, mas é sempre uma releitura do real. Não é como se fosse um imitador, procuro entender a alma dos personagens e fazer algo mais profundo. Caso contrário, convidariam imitadores, há quem faça isso perfeitamente. O cinema e a teledramaturgia têm esse distanciamento da imitação. Você procura ser, o que é mais delicado.


– Como você vê essa diferença de interpretar no cinema e agora no teatro?

No fundo, não existe diferença. Na realidade, no cinema, você vive o presente com um registro eterno. No teatro, é uma repetição de uma coisa, mas se você não absorver a atmosfera do teatro, o público, o momento, não será uma boa sessão.

Existe uma diferença de linguagem. Teatro é mais pra fora, cinema lê a alma do ator e do personagem. Você fala com os olhos no cinema.


– O que você pode adiantar sobre sua participação?

Bom, além do esquete, vou cantar uma música.


– Você conheceu algumas pessoas da família do Gonzaguinha. O que eles disseram sobre sua atuação?

Durante a preparação, optamos por não ter contato, mas depois do filme, sim, conheci os filhos e as mulheres de Gonzaguinha. Todas as pessoas, unanimemente, viram um pouco do Gonzaguinha. Às vezes, até muito.

Me disseram que algumas coisas da vida pessoal dele, sequer eles sabiam. Foram muitos os elogios e isso era o que eu queria. Ver que a família assistiria e embarcaria naquela história. Nada mais me importava, claro que queria agradar ao público, mas se a família aceitasse, pra mim já estaria legal.


– Se você tivesse conhecido o próprio Gonzaguinha, o que teria dito pra ele?

Nossa! (silêncio) Nossa! (risos) Acho que teria dado um abraço nele e dito ‘eu te amo’, porque é coisa de fã mesmo. Além de ser um ator que interpretou Gonzaguinha, sou seu fã número 1, não me canso de interpretar e ouvir a discografia.