Homenageado

Edição 2016

No amor ou na luta: Gonzaguinha – Das composições fortes ao romantismo do poeta, saiba porque ele merece ser homenageado

 

“Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será”

(Gonzaguinha)

Apesar do nome e sangue de artista, Luiz Gonzaga Jr., Gonzaguinha, passou dez anos de sua carreira no lado B da música. Compôs sua primeira canção, “Lembranças da Primavera” aos 14 anos e durante a década de 1960 suas letras engajadas e densas marcaram o início de sua carreira. Ao lado de Ivan Lins e Aldir Blanc, foi um dos responsáveis pelo Movimento Artístico Universitário (MAU), que se propunha a romper as barreiras do mercado de trabalho, uma alternativa aos festivais, e que acabou sendo absorvido pela TV Globo em 1971 com o lançamento do “Som Livre Exportação”.

O sucesso de Gonzaguinha veio mais tarde quando a canção “Comportamento Geral” foi apresentada no quadro “Um instante Maestro”, apresentado por Flávio Cavalcanti. Era 1973, a letra criticava os medos dos cidadãos que, segundo Gonzaguinha, baixavam a cabeça para tudo. Ainda segundo os registros oficiais, o júri do programa não gostou nada do que viu, chamando-o de terrorista e sugerindo até deportação. O feitiço virou contra o feiticeiro e, como um holofote, o episódio iluminou o músico.

O primeiro LP foi lançado na sequência, aproveitando o sucesso alcançado por “Comportamento Geral”, vendendo 20 mil cópias em uma única semana. A canção, assim como 54 das 72 composições de Gonzaguinha foram censuradas à época, e passou a ser chamado pela crítica de “cantor-rancor”, tamanho seu inconformismo.

“Ele não acreditava em mim pela minha formação, não tinha domínio sobre mim, temia que eu não virasse boa coisa” (Gonzaguinha, 1979, sobre o pai)

Gonzaguinha tinha com o pai uma relação tumultuada, que seria suavizada com seu amadurecimento. Já em 1976, no álbum “Começaria tudo outra vez”, gravou “Asa Branca”, de autoria de Gonzagão. Cinco anos depois, pai e filho estreitariam laços com a turnê “Vida de Viajante”, que fizeram juntos no início dos anos 1980.

A metade da década de 1970 marcou uma mudança de postura de Gonzaguinha, dando espaço ao lado romântico e introspectivo, quando decidiu romper com seu empresário e partir para uma carreira independente, rodando o Brasil com seu violão. Suas letras de amor “Grito de alerta” e “Explode coração”, eternizadas na voz de Maria Bethânia, marcariam não apenas a carreira da cantora, como também essa nova fase do artista. “Um homem também chora”, feita para Fagner, transparecia os mais profundos sentimentos do autor, que assumia sua fragilidade humana. Também em suas interpretações, exprimia emoções, como em “Sangrando”, iniciada com singelo desabafo até parecer se apoderar do cantor. Em 1989, ganhou o prêmio de melhor canção na categoria MPB no segundo Prêmio da Música Brasileira por “É”, que compôs e interpretou naquele ano.

Suas composições foram gravadas por muitos dos grandes intérpretes da MPB além de Maria Bethânia e Fagner, como Zizi Possi, Elis Regina, Joanna e Simone, esta última com interpretações marcantes de “Sangrando”, “Mulher, e daí”, “Começaria tudo outra vez” “Da maior liberdade”, É” e “Petúnia Resedá”.

Gonzaguinha nos deixou muito cedo, com 45 anos, vítima de um acidente de automóvel em 29 de abril de 1991, quando regressava de uma apresentação no Paraná. Sua enorme obra, entretanto, marcou profundamente a história da música brasileira.

“Só quero ver as pessoas assobiando as minhas músicas” (Gonzaguinha, 1990)

Cantar e cantaram e cantam.