Maria Bethânia: A hora e a vez

07 dezembro 2015,   By ,   0 Comments

Filha de Dona Canô. Irmã de Caetano Veloso. Baiana de Santo Amaro da Purificação. Voz de todos os brasileiros há 50 anos. Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu no dia 18 de junho de 1946 e foi batizada pelo irmão, admirador da valsa “Maria Betânia”, popular composição de Capiba gravada por Nélson Gonçalves. O nome só ganhou do pai o charme adicional do “h”.

Ainda criança, ela já dizia à mãe que seria artista. Pensou em ser atriz, mas acabou se rendendo ao canto, que costumava exercitar sentada à janela da casa, quando a família foi morar em Salvador. Caetano, então, já se iniciava no ofício. Convidado a musicar a peça “Boca de Ouro”, de Nélson Rodrigues, montada pelo amigo Alvinho Guimarães, levou-a para cantar “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves. Era o ano de 1963 e sua voz abria o espetáculo. Bethânia não aparecia, cantava atrás da cortina. Era o começo.

A estreia de fato aconteceria dois anos mais tarde. Musa da bossa nova, Nara Leão estrelava no Rio de Janeiro a peça “Opinião”, dirigida por Augusto Boal, ao lado de Zé Kéti e João do Vale. Convidou Bethânia a substituí-la. E a estreia se deu no dia 13 de fevereiro de 1965. A jovem baiana deixou sua assinatura inconfundível ao interpretar “Carcará”, parceria de João do Vale e José Cândido que até hoje marca o início de sua carreira. O primeiro disco, um compacto com uma canção de cada lado, registrava ainda a primeira composição de Caetano a ser gravada, “De Manhã”.

A força do “Opinião”, com seu engajamento político e social em plena ditadura, ameaçou rotulá-la como “cantora de protesto”, imagem que logo tratou de refutar para seguir suas próprias convicções artísticas. Voltou a Salvador para retornar ao Rio apenas no ano seguinte. Assinou contrato com a TV Record, dividiu o palco com Vinícius de Moraes e Gilberto Gil e participou do 1º Festival Internacional da Canção, quando interpretou “Beira-Mar”, de Gil e Caetano. No ano seguinte, ainda dividiria um disco com Edu Lobo.

Começou a construir uma carreira de prestígio e sem concessões a modismos. Foi dirigida por nomes da grandeza de Fauzi Arap e Bibi Ferreira e emprestou a cada espetáculo uma dramaticidade de atriz que virou sua marca como intérprete.

O primeiro Disco de Ouro veio com “Pássaro Proibido”, em que se destacava “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque, de quem gravou tantas canções. Gonzaguinha, outro compositor frequente em sua obra, também já aparecia ali.

Foi nesse mesmo ano que Bethânia, Caetano, Gil e Gal Costa se uniram para formar o grupo Doces Bárbaros, que iniciou em São Paulo, em 24 de junho, uma turnê nacional devidamente documentada pelo cineasta Jom Tob Azulay.

Consagrada como uma das maiores intérpretes brasileiras, Bethânia era sucesso na televisão, no rádio e nas apresentações sempre lotadas. Lançava compositores e inovava ao levar aos palcos literatura e poesia. Em 1984, dirigida por Naum Alves de Souza, apresentou o show “A Hora da Estrela”, inspirado na obra homônima de Clarice Lispector.

Em 1987, pela primeira vez, gravou a canção que a batizou. O registro de “Maria Betânia” está no álbum “Há Sempre um Nome de Mulher”, coletânea com diversos artistas. Em 1990, comemorou 25 anos de carreira com show e disco homônimos – “25 Anos” –, sob a direção de José Possi Neto.

O ano de 1993 marcou o enorme sucesso de “As Canções que Você Fez pra Mim”, em que Bethânia gravou exclusivamente o repertório de Roberto e Erasmo Carlos. A vendagem alcançou 1,5 milhão de cópias. E novamente se juntou aos Doces Bárbaros quando a Mangueira homenageou os quatro baianos no Carnaval carioca de 1994, com o enredo “Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu”.

E quando se pensava que Bethânia, depois de tamanho sucesso, poderia se deixar seduzir por projetos mais comerciais, ela se impunha pela originalidade e pelo desejo de dizer ao público o que lhe vinha na alma. Em 2000, por exemplo, lançou em disco de tiragem limitada o belo e delicado projeto “Cânticos, Preces e Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu”, apenas com canções – muitas delas tradicionais – dedicadas a Nossa Senhora.

Em 2003, reafirmou sua independência artística ao criar seu próprio selo, o Quitanda (em parceria com a gravadora Biscoito Fino), pelo qual lançou “Brasileirinho”, revisitando a religiosidade e as raízes brasileiras.

Registrou em disco a obra do poetinha Vinícius de Moraes (“Que Falta Você me Faz”, de 2005), foi tema do documentário “Música É Perfume”, dirigido por Georges Gachot, costurou os versos dos portugueses Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner com os brasileiríssimos Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto no espetáculo “Dentro do Mar Tem Rio”, depois dividiu palco e disco com a dama da canção cubana, Omara Portuondo. Como se não bastasse, ela ainda é recordista de vitórias no Prêmio da Música Brasileira (de 1985 a 2014 já foram 22 premiações).

Ao completar 50 anos de carreira, portanto, Maria Bethânia tem todos os motivos do mundo para receber a nossa homenagem. E continuará sendo pouco perto do que ela fez, faz e ainda fará pela nossa canção popular e pela nossa cultura.