Chega de Saudade: e nasce a bossa nova!

28 março 2013,   By ,   0 Comments

394

Todo movimento artístico nasce aos poucos. São histórias, artistas, influências que se misturam até que – em dado momento – é decretado: aquilo é novo. É um marco, que pode ser um manifesto, um livro, um evento. Com a Bossa Nova não foi diferente. “Chega de Saudade”, música composta por Tom e Vinícius de Moraes e gravada por João Gilberto, é considerada um dos marcos inaugurais da Bossa Nova.

A música de 1958 foi gravada por João Gilberto e lançada no seu primeiro compacto. No lado B, “Bim Bom”, música de João. É verdade que, nos saraus e reuniões na zona sul carioca, o novo gênero já vinha se desenhando. E em 58, Elizeth Cardoso lançou “Canção do Amor Demais”, um disco só com músicas da dupla Tom e Vinícius – que tinha trabalhado juntos pela primeira vez em “Orfeu da Conceição”. João Gilberto participava do LP, já com sua famosa batida de violão nas faixas “Chega de Saudade” e “Outra Vez.”

Mas para muitos historiadores e jornalistas musicais, só no compacto de João Gilberto é que estava – como Mario Sergio Conti definiu – “a cápsula da invenção”. “A criação se dá em dois planos”, diz ele. “’Chega de Saudade ‘ havia sido composta por Jobim como um chorinho. Pois João Gilberto o transformou num samba enxuto, no qual o violão deixa de ser um mero acompanhante para dividir o primeiro plano com a voz. A letra é interpretada como quem fala, de modo íntimo. A melodia (de fundamento europeu) se amalgama à harmonia (com inspiração do jazz americano) e ao ritmo (que vem da África e se condensa no samba) para dar origem a outra coisa: um som que é uma arte.”

 

Em 1959, João Gilberto lançou seu primeiro LP solo, “Chega de Saudade” . Para muitos, esse é considerado o ano oficial do surgimento da bossa nova.“O ano foi escolhido, em primeiro lugar, pelo disco de João Gilberto. E por outras razões também”, explica Sergio Cabral, no seu livro “Tom Jobim”. “Em setembro daquele ano, os estudantes da PUC promoveram um espetáculo no teatro de arena da Faculdade de Arquitetura, pertencente à então Universidade Brasil, reunindo vários nomes como Tom Jobim, Silvinha Teles, Alaíde Costa, Baden Powell, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli…”

De repente, tudo era bossa nova. Em seu depoimento ao MIS, Tom Jobim falou sobre o modismo e ainda rebateu a ideia de que a influência da nova música era o jazz. “E surgiu aquela fase que tinha advogado bossa nova, geladeira bossa nova, sapato bossa nova. O comércio aproveitou a onda. (…) Agora, sem duvida, o movimento foi importantíssimo. Hoje, se diz que foi muito influenciada pelo jazz, principalmente pelo cool jazz. O que eu não acho verdade. Pelo contrário, se há influência, a bossa nova influenciou muito mais o jazz do que o jazz influenciou a bossa nova. E isso é facilmente explicável, porque o Brasil é aquele pais rico de temas, de assuntos e de outras coisa que os outros lugares não têm. Não estou querendo dizer que não haja influência, Há influência de tudo, só não sofre influência o que está morto ou é uma pedra que só sofre influência do martelo. Tudo que vive e é sensível sofre influências.”

E começava mais um capítulo da música popular brasileira.