Orfeu, o mito que uniu Tom e Vinícius

21 fevereiro 2013,   By ,   0 Comments

Em tempos de Oscar – a cerimônia de premiação acontece neste domingo (24) – é hora de lembrar de um marco na carreira de Tom Jobim: a trilha sonora de “Orfeu Negro”,vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Além do Oscar, o longa ganhou a Palma de Ouro e o Globo de Ouro, entre outros prêmios. O filme não é uma produção brasileira, mas se passa no Brasil e tem trilha sonora de Tom Jobim e Luiz Bonfá. É baseado na peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes – que tem trilha de Tom e Vinícius. Foi a primeira parceria dos dois e, por isso, histórica.

388

 

Niemeyer, Vinícius e sua mulher Lila Bôscoli e Tom. Ao lado, a partitura de ‘Orfeu da Conceição” com anotações de Tom sobre a orquestração (reproduções)

Vinícius tinha escrito “Orfeu da Conceição”, uma adaptação do mito grego de Orfeu e Eurídice. Trouxe a história do amor impossível para as favelas do Rio de Janeiro. Queria alguém para musicá-la e tinha convidado Vadico – parceiro de Noel Rosa – para a empreitada. Ele não aceitou. E era isso que o poeta contava para os amigos certa noite do restaurante Vilarino, no Rio de Janeiro. A história é descrita no SongBook de Tom Jobim: “Foi o crítico e historiador Lucio Rangel que teve a ideia de conduzir Tom Jobim – sentado em uma das mesas do Vilarino – à mesa de Vinícius de Moraes.” Naquela época, Tom ainda trabalhava na noite e Vinícius já era um poeta respeitado que lhe falou sobre sua ideia. “Tom ouviu tudo pacientemente e respondeu com uma pergunta: ‘Tem um dinheirinho nisso?’ Lucio Rangel convidou -o para um canto e observou: ‘Este é o poeta e diplomata Vinícius de Moraes. Como é que você tem coragem de falar em dinheiro numa hora dessas ?’ É que Lucio não sabia que Tom Jobim enfrentava dificuldades financeiras e vivia correndo atrás do aluguel”.

Mas o comentário não atrapalhou o encontro. E os dois começaram a trabalhar juntos, como Tom contou no SongBook. “No início, havia uma certa timidez. As primeiras músicas ficaram umas porcarias. Fizemos três sambas horríveis, num desajuste total. Mas Vinícius, pacientemente, queria que fossemos trabalhando até sair uma coisa direita”. E saiu, mais que direita. A música era uma jóia que se transformou num clássico: “Se todos fossem iguais a você” .


A peça foi apresentada pela primeira vez no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – que também é o palco do Prêmio da Música Brasileira – em 1956. Tinha cenários de Oscar Niemeyer, cartazes de Djanira e Carlos Scliar, orquestração de Tom Jobim e – além da orquestra – Tom ao piano e Luiz Bonfá no violão.(Veja o programa da peça aqui)

?No mesmo ano, o disco foi lançado. Na contracapa, Vinícius escreveu: “Confesso que a excelência do trabalho, que me foi sendo pouco a pouco apresentado pelo compositor, excedeu todas as minhas expectativas. Usando com grande habilidade elementos dos modos e cadências plagais que criam uma ambiência grega perceptível a qualquer pessoa, Antonio Carlos Jobim partiu realmente da Grécia para o morro carioca num desenvolvimento extremamente homogêneo de temas e situações melodico?dramáticas, fazendo, no final, quando a cena abre, o samba romper sobre o morro onde se deve processar a tragédia de Orfeu”.

A peça foi, então, adaptada para o cinema e a trilha, desta vez, foi de Tom e Luiz Bonfá, com músicas também de Vinícius e Antônio Maria.

387

Assista ao filme: