O samba, do telefone à internet

No último sábado, completaram-se 124 anos do nascimento de Donga, compositor carioca que entrou para a história como autor da primeira gravação de samba, o homenageado do 25º Prêmio da Música Brasileira. Foi em 1917, com “Pelo telefone”, de sua autoria. 

Donga se chamava Ernesto Joaquim Maria dos Santos e conviveu com gente como Pixinguinha, Tia Ciata e João da Baiana. Integrou o grupo Oito Batutas e a banda Carlito Jazz, além de ter organizado a Orquestra Típica Donga Pixinguinha. Mas morreu sem fazer fortuna, em 1974.

Quase 80 anos depois, em 1996, Gilberto Gil revisitaria a canção de Donga e a traria para os novos tempos. Parodiando “Pelo telefone”, Gil criou “Pela internet”. Se a letra do primeiro samba gravado dizia que “o chefe da polícia, pelo telefone, mandou avisar que na Carioca tem uma roleta para se jogar”, o cibersamba do compositor baiano atualizava: “O chefe da polícia carioca avisa pelo celular que na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar”.

“Pelo telefone”: http://youtu.be/X99_DMzHPNg
“Pela internet”: http://youtu.be/WM6_DE0lBFE

Saudade, Zé…
Saudade, Zé…
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A partida inesperada de José Wilker deixa um vazio irreparável e uma saudade imensa. Ele também faz parte da história do Prêmio da Música Brasileira. Em 2012, foi Wilker quem subiu ao palco para apresentar o homenageado da noite, João Bosco. Com a voz marcante de sempre e uma interpretação serena, leu o texto de Aldir Blanc sobre a história de sua parceria com João.

 

Lendo o texto, reproduzido a seguir, é difícil imaginar a voz de Wilker e não se emocionar. Saudade, Zé!

“Quando conheci João Bosco, fiquei fascinado com um ponto comum na imensa variedade de seu repertório ainda sem letra – sambas, toadas, canções, algumas cujo gênero não era, e não é até hoje, fácil de definir: havia nelas o uivo barroco da solidão de Ouro Preto, cidade onde João estudava engenharia e compunha, em silêncio, uma revolução musical. Acho que ouvi, na casa do amigo que nos apresentou, Pedro Lourenço, mais de 30 músicas pedindo palavras, e cada uma era mais bonita e original que a outra, um paraíso para letrista em início de carreira.

Começamos a trabalhar com fitas enviadas pelo correio. Nenhum problema. Já éramos, por temperamento e destino, uma parceria indissolúvel. Tínhamos, como nos orgulhamos de ter até hoje, inesgotável vontade de trabalhar. Lembro do João, começo dos anos 70, quando já morava no Rio, pegando o violão no começo da tarde. Muitas vezes outro dia raiaria, e apesar dos uísques e cervejas, nós estávamos inteirinhos, atentos, João tocando na pontinha da cadeira, eu em frente, ligadaço, como no minuto em que havíamos começado a canção, na tarde anterior, até ficarmos satisfeitos e trocarmos um sorriso cifrado: mais uma no balaio.

João é um forte. Sofreu incompreensões e até maldades difíceis de suportar, a menos que o artista tenha um objetivo implacável. Viajamos pelo Brasil todo, João mostrando as novas no palco, eu no roteiro, na luz, às vezes na tumbadora. Detestamos avião. Pegamos turbulências incríveis, ambulâncias na pista, o escambau. Compúnhamos em táxis, butecos, aviões e de madrugada, em hotéis, quando voltávamos dos shows, incansáveis. Fizemos músicas em pé, de ressaca, na beira da calçada. Fizemos música sonhando, fizemos música sofrendo muito. Esse é o maior orgulho da parceria: sempre ralamos com afinco, com a maior garra.

Fico imaginando a cara dos que escreveram coisas como: “eles são obcecados por uma violência que não existe”. Ótimo terem nos chamado, ainda que a intenção fosse outra, de profetas – assim como, queiram ou não, profetizamos a reabilitação de João Cândido, a Anistia, influenciados pelo passado e pelo futuro, mas sabendo que a nossa cor era e será, sempre, verde e amarela como a bananeira.

Estivemos afastados vinte minutos, vinte séculos – e esse tempo foi igual a observar as mesmas estrelas de navios diferentes, sentindo a água e o vento que nos reuniria.

Se hoje, paradoxalmente, as dificuldades são maiores, também fomos claros sobre isso: “Glória a todas as lutas inglórias!”.

E quando tentarem, mais uma vez, o aliciamento de má-fé para “facilitar”, lembraremos que, atrás dessas propostas aparentemente generosas, está a ponta dos arietes, e responderemos, como 40 anos atrás: NÃO!”
– Aldir Blanc

Samba marciano
Samba marciano
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Diz a velha canção que “o samba nasceu lá na Bahia”. Fato. Mas o ritmo – que é nosso homenageado no 25º Prêmio da Música Brasileira – cresceu, ganhou o mundo e chegou até Marte.

Não é brincadeira, não. Foi em 1997, quando a agência espacial norte-americana, a Nasa, realizava uma missão no Planeta Vermelho com a nave Pathfinder. Junto com ela estava o robô Sojourner, responsável por coletar material em solo marciano.

Em expedições tripuladas, era habitual que os engenheiros da Nasa acordassem os astronautas com músicas. E eles mantiveram a tradição, simbolicamente, para “acordar” o robô.

Ocorre que havia uma brasileira na equipe da agência, a engenheira Jacqueline Lyra. E coube a ela, certo dia, escolher o toque de despertar. Foi assim que, diretamente do estado da Califórnia, numa sexta-feira, 11 de julho, o samba “Coisinha do Pai”, de Jorge Aragão (na foto), Almir Guineto e Luís Carlos, começou a ser executado para o seu ouvinte solitário em Marte.