Adriana Calcanhotto escreve sobre os sons e o silêncio a partir de vivência na Turnê PMB

02 julho 2013,   By ,   0 Comments

No Segundo Caderno do Jornal O Globo, neste último domingo (30), Adriana Calcanhotto escreveu sobre suas experiências de sons e silêncio na mata de Carajás, segunda cidade a receber a turnê PMB.

Leia abaixo o texto integral:

A voz das ruas e o passarinho – ADRIANA CALCANHOTTOO GLOBO – 30/06

Embrenhada na mata amazônica, mais especificamente em Carajás, na turnê que homenageia Tom Jobim, com os queridos colegas Zélia Duncan, João Bosco, Roberta Sá e Zé Renato, estou quieta no meu quarto ouvindo o silêncio. Sabe-se que não há silêncio na mata, mesmo assim, prefiro mil vezes às campainhas de garagem de Ipanema, aos toques de celular metidos a engraçadinhos, às buzinas impacientes, à música no elevador, nas salas de espera, a tudo o que não deixa o silêncio em paz, por puro medo do silêncio, eu acho. Estamos hospedados em uma casa incrível e ouço à minha janela o jardineiro varrendo folhas secas sem pressa nenhuma. Daí a pouco ele passa a regar as plantas, batucando as gotas d’água nas folhas mais duras.

Espio pela janela e vejo que ele usa fones de ouvido, alheio ao silêncio da mata e ao barulhinho bom que está produzindo. Parece acompanhar o que escuta com os movimentos da mangueira, empunhada com leveza e preguiça. Não muito ao longe o Sabiá Laranjeira, aquele que além de ter um canto belíssimo imita o canto de outros pássaros, e que os poetas adoram citar, gorjeia, entregando que é época de acasalamento.

Ele atravessa o silêncio com suas melodias inventadas a partir do canto dos pássaros que repete, como qualquer compositor. Precisa perpetuar sua espécie e para isso canta, para atrair a metade que lhe falta para a empreitada. Canta, como os trovadores provençais, para aquela que no entanto pode não o querer. Canta como se não houvesse amanhã, transbordando de beleza meus pobres tímpanos, tão fatigados. Enquanto isso, na TV ligada, sem som, as cenas são impressionantemente lindas.

O Brasil profundo, acordado, nas ruas, em manifestações pacíficas e apartidárias, coisa que não pensei que fosse viver para ver, muito menos o governo. Portanto não sei agora se participo, acompanhando ao vivo às manifestações, ou se ouço o sabiá, tipo um Antonio Brasileiro (urubu acho que não canta) traduzindo com seus trinados o mesmo Brasil profundo, no seio, no dentro da floresta amazônica. Posso gravar o sabiá para ouvir mais tarde, mas não seria a mesma coisa, o gravador registraria o canto mas não o agora do sabiá, que não sabe de mim ou da voz das ruas e seus tristes vândalos fim de festa. Ou mesmo de quantas árvores estão sendo dizimadas neste exato minuto a uns poucos quilômetros daqui, em gesto de autodestruição a que os humanos estão acostumados, e em que passarinho algum acreditaria. A

s imagens do povo encarapitado nos espaços curvilíneos do Niemeyer são muito comoventes, e fantasio que o arquiteto gostaria de assisti-las. Sei que vou rever à exaustão as imagens, em edições comportadinhas, com o mesmo texto lido por diversos locutores. Diferente de assistir ao vivo ao repórter cinematográfico ajustar o foco enquanto as pessoas clamam por um tratamento de cidadãos, que pagam impostos e não têm os serviços básicos, clamam por educação, por um sistema de saúde decente, por transparência nas contas públicas, por paz, por poesia, enojados da politiquinha que usa cargos como moeda, fisiológica, nepotista, cínica, corrupta, atrasada. Os brasileiros estão nas ruas por motivos óbvios e acho bem estranho que o governo ache estranho. Munidos de seus celulares os manifestantes são eles mesmos os repórteres de sua causa e deixam assim as coberturas tendenciosas comendo poeira, é tudo novo, vivo, ao vivo.

O canto do sabiá prossegue em suas melodias de amor, harmonizado agora pelo canto de um sanhaço mais ao longe, um espetáculo. Penso no privilégio que é estar cantando nosso maestro soberano Brasil adentro justo no instante em que o Brasil acorda de sono pesado. O melhor compositor do mundo, como disse Frank Sinatra, sendo cantado a plenos pulmões por onde temos passado. Em teatros ou ao ar livre, o público canta todas as canções de cabo a rabo junto conosco. A galera que trabalha por trás do palco canta também o repertório do show, é lindo demais. Nunca fui muito boa em fazer escolhas, desde pequena achava chato ter de escolher, porque não posso ficar com todas as opções, é tão mais prático viver sem estar dividida.

Então acontece isso, de eu estar com um olho na TV e os ouvidos no passarinho enquanto durar cada um dos eventos, que me aceleram o coração. Nas ruas não sei o que vai acontecer mas intuo que amanhã vai ser outro dia. Para a floresta amazônica posso sempre voltar, enquanto ela ainda existir, e assim prometo a mim mesma que vou voltar, sinto, sei que ainda vou voltar, para ouvir cantar minha sabiá, cantar minha sabiá.