‘Águas de Março’: trilha sonora da mudança de estação

18 março 2013,   By ,   0 Comments

Não existe um só ano em que Tom não seja lembrado e relembrado neste época do ano. Afinal, em seu clássico “Águas de Março” – Tom, observador da natureza que era – cantou o tempo no Brasil nesta mudança de estação. A música foi composta no sítio da família, em Poço Fundo, na região de Petrópolis. E que, por ironia do destino, foi destruído há dois anos na enchente que devastou a serra do Rio de Janeiro. Para o pianista e neto de Tom, Daniel Jobim, “a música foi uma coisa profética. Ele via que, a cada ano, o rio subia um pouco mais”, contou em entrevista ao Fantástico. Ele acompanhou a destruição da cada de sua bisavó e registrou tudo em vídeo.



Na época da enchete, Olívia da Silva Porfílio, de 86 anos, falou da relação de Tom com o lugar. “Eu me sinto como se tivesse criado o Tom. Trabalhei a vida inteira para a família dele. Quando ele ainda era um menino, com 12 anos, saía para caçar passarinhos. Muito curioso, pedia para eu ajudá-lo a identificar os cantos dos pássaros, como tico-tico, saracura e trinca-ferro antes de atirar pedra com seu bodoque. A gente conversava muito e, depois, se apaixonou pela natureza e passou a respeitar a mata e os animais”, disse.

A música foi composta em 1972. “Ele estava no sítio dele compondo Matita Perê, que é uma música muito complicada e tinha empacado, não saía do lugar. Então foi ficando cansado, com raiva, pegou o violão, e começou a cantarolar, “É pau, é pedra…” Sabe por quê? Ele estava irritado, tinha uma obra na estrada do sítio, cheia de pau, pedra e lama, porque chovia muito”, lembra o diretor Nelson Pereira dos Santos, que acaba de lançar filme sobre o compositor.

Como não conseguiu um papel para anotar a letra, resolveu escrever ali mesmo, num embrulho de pão. Foi lá que escreveu os primeiros versos. A música foi completada no Rio e lançada do “Disco de Bolso”, compacto do Pasquim, em 1972. Na contracapa, Tom disse que uma das inspirações foi o poeta parnasiano Olavo Bilac, que escreveu “O Caçador de Esmeraldas” (“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada, Do outono, quando a terra, em sede requeimada”).

A música abriu o disco Matita Perê (1973 , foi gravada por João Gilberto no mesmo ano e ganhou versão em inglês com nova letra. Afinal, segundo Tom, seria impossível traduzir. ‘”Um dia, eu estava meditando em cima do verso “é um espinho na mão, é um corte no pé” e percebi tudo. Como é que um americano iria cortar o pé se ele nunca anda descalço?”, disse ele a um de seus biógrafos, Sérgio Cabral.

Uma de suas versões mais clássicas é a do dueto com Elis Regina, no disco e “Elis & Tom” (1974).